quinta-feira, 18 de maio de 2017

C..., é o meu chapéu!

"Caralho, é o meu chapéu!"
Me desculpem pelo palavrão, mas não consegui pensar em outra frase para começar este texto.
Esta foi a mais pura expressão do que senti no dia 12 de dezembro de 2007. Segue o vídeo:

Eu era um pré-adolescente em meados da década de 1990, mas já sabia qual gênero musical me acompanharia para o resto da vida. E o Chris Cornell, através do Soundgarden, foi a personificação da minha paixão pela música. Da mesma forma e na mesma época, surgiram as outras duas paixões que carrego intensamente até hoje: automobilismo, personificada na figura do piloto canadense Jacques Villeneuve e o rádio, representada pelo 102,9 FM da extinta Rádio Cidade e do então jovem locutor Rhoodes Lima, que atualmente é o maior narrador de MMA do país, e sempre foi a minha principal referência profissional. Essas foram as minhas paixões de adolescente. Que me perdoem as namoradinhas da época (admito que não foram muitas). Na verdade, minha vida amorosa só ficou mais agitada quando a Rádio Cidade chegou ao fim pela primeira vez, o que acabou coincidindo com o ano da aposentadoria do Jacques Villeneuve. Foi aí que começou a sobrar tempo aos fins de semana para outras coisas, como namorar. Já na fase adulta, eu sempre falava para as minhas namoradas: "Você é prioridade até o assunto chegar ao Chris Cornell ou ao Jacques Villeneuve". Tanto que nesta manhã, uma das primeiras mensagens que recebi sobre a morte do Chris Cornell, foi da minha ex-esposa.
Pouco tempo após eu descobrir a banda, que para mim é a melhor da história, o Soundgarden anunciou o fim das atividades, no dia 09 de abril de 1997 (que também é o dia do aniversário do Jacques Villeneuve). Achei que era o sepultamento do sonho de assistir ao incrível quarteto de Seattle ao vivo, pois o grupo ainda não havia tocado no Brasil.
Mas não demorou até o Cornell lançar um bem sucedido disco solo. Mas a grande surpresa veio mesmo em 2002, quando ele montou o Audioslave com ex-integrantes do Rage Against The Machine. Continuei acompanhando, comprando discos, mas sem o mesmo entusiasmo que tinha na época do Soundgarden. Em apenas cinco anos, a banda lançou 3 discos. Após o fim do Audioslave, em 2007, Chris Cornell saiu em turnê cantando músicas da carreira solo, do Soundgarden, do Temple Of The Dog e do Audioslave. E foi nesta turnê que Cornell desembarcou pela primeira vez em terras tupiniquins. Acompanhado pelos excelentes músicos Peter Thorn (Guitarra), Yogi Lonich (Guitarra), Corey Mc Cormick (Baixo) e Jason Sutter (Bateria), Cornell passou a limpo os seus 25 anos de carreira, no palco do Citibank Hall. Eu não poderia estar em outro lugar que não fosse a primeira fila. A minha principal identidade visual na adolescência, era a utilização de chapéus australianos. Eu tinha uma coleção, de várias cores. Como no início dos anos 2000, eu participei do cenário da música independente carioca na produção de shows do "Mandril" e na apresentação de boa parte dos shows das 3 primeiras edições da coletânea "Tributo ao Inédito", os conhecidos me encontravam nos shows por causa do chapéu. Então, no dia 12 de dezembro de 2007, resolvi tirar do fundo da gaveta o chapéu vermelho, que já estava aposentado há alguns anos. Percebendo o meu estado de êxtase (ou total descontrole), o Cornell algumas vezes veio em minha direção cantando, me encarando a poucos centímetros de distância. Até que no meio do show, resolvi jogar o meu chapéu no palco (nunca entenderei o motivo). Ele pegou o chapéu, pendurou no pedestal e começou a cantar a música "Be Yourself". Após o fim da canção, ele me devolveu o chapéu. Para completa compreensão do que foi este momento, que inspirou o título desta publicação, é necessário que você assista o vídeo do início do texto.
Porém, minha história com Chris Cornell não parou por aí. No final de 2009, ele anunciou a volta do Soundgarden e em 2012, a banda lançou um disco com músicas inéditas, o que não acontecia desde 1996. Em 2013, nos encontramos novamente. Desta vez, num formato mais intimista, em um show acústico no Vivo Rio. E finalmente em 2014, realizei um dos maiores sonhos da minha vida, que era assistir a um show do Soundgarden. Essas experiências foram detalhadamente contadas em outras publicações aqui do blog. Para quem quiser saber, seguem os links:




Peço licença para repetir apenas um trecho do texto que publiquei em 2013, pois é uma das histórias mais lindas que já tomei conhecimento:

"A minha admiração pelo Chris Cornell não é apenas por considerá-lo o melhor cantor da história do rock, vocalista da minha banda preferida ou por ser o músico mais influente do movimento grunge (essa afirmação está explícita no documentário Peal Jam Twenty). Em 2009, o Chris teve a atitude mais comovente que já vi por parte de um artista. Segue a notícia  publicada no site Cifra Club, no dia 21 de abril de 2009:
"Chris Cornell disponibilizou para download a música , feita em parceria com Rory de La Rosa, um fã do cantor.
De la Rosa perdeu a filha Ainslee, que tinha seis anos, vítima de câncer no ano passado. Pouco depois, ele foi diagnosticado com a mesma doença.
O fã quis entrar em contato com o cantor para dizer como a música de Cornell havia sido importante em sua vida e na ligação que ele tinha com sua filha.
O cantor se comoveu com a história e respondeu a mensagem. A correspondência dos dois resultou em um poema escrito por Rory de la Rosa que acabou transformado em uma canção.
I Promise it’s Not Goodbye pode ser baixada no site oficial do cantor gratuitamente. Na página há também um link para quem quiser fazer doações a Rory de la Rosa e sua família em memória de Ainslee e para ajudar com as contas do tratamento médico. "
As fotos do vídeo são da pequena Ainslee.

Já assisti este vídeo algumas vezes e nunca consegui chegar ao final sem estar com os olhos marejados."

Diferente do que acontecia anteriormente, na manhã deste 18 de maio de 2017, chorei mais uma vez ouvindo a canção, mas o motivo foi outro.
Depois de uma longa e turbulenta noite de trabalho, acordei cedo para saber se o Michel Temer já havia renunciado. Mas em meu celular, já estava a mensagem de um grande amigo informando que uma parte importante da minha história havia morrido. Foi apenas a primeira de muitas mensagens. Todas as pessoas disseram que foi impossível não lembrar de mim quando souberam da notícia.
E o chapéu? Eu sempre fazia a estúpida brincadeira dizendo que quando o Cornell morresse, ele ia valer um bom dinheiro. Não poderia imaginar que esse dia chegaria tão precocemente. E é claro que não há dinheiro no mundo que pague a lembrança de um dos momentos mais incríveis da minha vida.

Me esforcei para este texto não soar fúnebre, mesmo estando com o coração devastado, pois o Cornell me ofereceu a sua arte, que sempre foi sinônimo de felicidade, euforia e boas lembranças.
Obrigado por ter feito minha vida mais feliz!
Descanse em paz, cara!


I promise it's not goodbye!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O show tem que continuar...

Hoje, desativei o alarme do celular que me despertava às 02h50, desde o dia 1º de abril de 2016. Algumas vezes, parecia que ele tocava antes mesmo de eu ter conseguido dormir, e talvez isso até tenha acontecido. Mas nunca perdi a hora, nunca atrasei durante este período. Qualquer pessoa que me conheça minimamente, vai duvidar que não atrasei no último ano, mas é verdade. A responsabilidade de estar produzindo o principal programa do rádio brasileiro corrigiu até um dos meus defeitos crônicos. Já até tentei achar explicações patológicas para os meus atrasos, mas nunca consegui convencer aqueles que já me esperaram até por horas em compromissos marcados por mim. Neste período, trabalhei com o maior comunicador de rádio do Brasil, mas esse Antonio Carlos todo mundo conhece. Porém, tive a oportunidade de conhecer o profissional por trás do microfone. E com esse aprendi muito! Ele nunca faltou e nem chegou atrasado. Não dorme tarde e usa 8 despertadores em volta da cama, para não correr o risco do "cochilo de só mais 5 minutinhos" que sempre acaba de forma trágica. Aprendi como se faz um programa de rádio totalmente dedicado ao ouvinte, sem que o gosto pessoal do comunicador interfira no conteúdo. Nunca ouvi o Antonio Carlos falar "o meu programa".  Também aprendi o que é uma equipe de verdade, daquelas que são imbatíveis, tipo a seleção brasileira da Copa de 1970. Mas para dar certo, todos têm que desempenhar as suas funções com perfeição.
Se você acha que sou uma pessoa bacana, é porque não trabalha comigo. Quando a luz vermelha "no ar" acende no estúdio, me transformo no cara mais perfeccionista e sério (chato) do planeta. Já me aborreci com bons amigos que não me levaram a sério enquanto eu produzia um programa. Se algo dá errado, minha coluna começa a travar e a cabeça a doer. Como não gosto de me sentir assim, só tenho a opção de fazer o melhor possível, mesmo que isso signifique regravar a mesma reportagem 8 vezes, até achar que tirei o melhor de mim. Acredito que a seriedade (até exagerada) com o trabalho tenha sido responsável pelo respeito que o Antonio Carlos demonstrou ter por mim, desde quando cobri as férias do Gelcio Cunha pela primeira vez, em janeiro do ano passado. Não sou amigo pessoal do Antonio Carlos, por isso me limito a falar dele apenas como profissional. Mas pelo pouco que sei, o caminho que ele percorreu até se tornar o radialista mais bem sucedido do país, daria um belo livro. Como profissional, ainda não conheci e provavelmente não conhecerei alguém mais disciplinado e focado no trabalho.

No entanto, admito que no início não achava que seria assim. Fiz jornalismo acreditando no dever cívico da profissão. Por isso, sempre quis ser repórter, prestar serviço, denunciar as mazelas da nossa sociedade, ser a "voz do outro que há dentro de mim", como canta o Frejat num trecho da música 'Política Voz' do Barão Vermelho. Não é a toa que escolhi essa música para tocar na minha colação de grau. Vinte dias antes de assumir a produção do 'Show do Antonio Carlos', estreei na programação da Rádio Globo o quadro 'Conta Pra Gente'. Era o resgate da essência do trabalho construído pelos grandes repórteres que passaram pelo Amarelinho da Globo, como Gelcio Cunha, Robson Aldir e Alberto Brandão. Em apenas 3 semanas, resolvemos os problemas de muitas pessoas, chorei dentro do Amarelinho após entrevistar uma senhora que havia perdido tudo por causa de uma forte chuva e bati boca com um prefeito da Baixada Fluminense que tentou insinuar que a minha denúncia não era verdadeira. Estava no auge do meu sonho de estudante. Quando soube que abandonaria o quadro para ser produtor, não pensei duas vezes: fui à sala do diretor para comunicar que pediria demissão. Além do diretor, estava na sala também o meu coordenador. Os dois ficaram surpresos e tiveram a paciência necessária para me fazerem reconhecer que estava sendo impulsivo e imaturo. Sou grato aos dois por isso. Achei que era o fim da minha carreira como repórter. Mas, na verdade, era apenas um recomeço na forma de fazer jornalismo e prestar serviço. Em poucas semanas, percebi que assumir a produção do programa nº 1 do rádio brasileiro era uma honra, daquelas que merecem destaque no currículo. Mesmo sendo fã e ouvinte do Antonio Carlos, nunca me imaginei trabalhando com ele. Numa mesma edição do programa, eu gargalhava até doer os músculos da face brincando com a Juju e o Gelcio, mas também me emocionava com as histórias contadas no quadro 'As canções do Rei e as histórias de cada um'.
Já que o programa acabou, vou fazer uma confissão: enviei uma carta para a produção do programa me passando por um ouvinte, pois queria me despedir de alguém especial no quadro 'As canções do Rei...'. Toda a história foi real, apenas os nomes não eram verdadeiros. A responsável por esse quadro era a Aldenora Santos, a Pudica. Ela recebia as cartas e e-mails dos ouvintes e passava as histórias para linguagem radiofônica. O mais engraçado foi ela me falando "Cantharino, você leu a história desse ouvinte? Que emocionante!". O único que soube na época que era a história da minha vida foi o Antonio Marcos Pires, o Toninho Bondade, que atualmente é um dos meus melhores amigos. Não comentei com ninguém que faria isso e utilizei nomes que só faziam sentido para mim e para a pessoa. Mas surpreendentemente, logo após o fim do quadro, recebi a seguinte mensagem de um amigo de infância que era ouvinte do programa: "Bela homenagem, amigo!"
(Pausa para ouvir novamente a gravação)
Na mesma época, o Gelcio Cunha me provou que é uma das pessoas com o coração mais belo que habitam este mundo. Dos integrantes do programa, sempre fui o primeiro a chegar à rádio. Um dia, o Gelcio chegou e não respondi o seu "bom dia" com a mesma alegria de sempre. Mesmo enrolado com a pauta das entrevistas (ele também é a pessoa mais enrolada que eu conheço), me chamou na mesa dele e perguntou o que estava acontecendo. Respondi qual era o motivo da minha tristeza. E quando menos eu esperava, ele me abraçou forte e começou a chorar. Durante uma semana, ele fez questão de ir tomar café da manhã comigo depois do programa, no bar ao lado da rádio. Admiro muito a Juçara, a Aldenora e a Zora, elas são as melhores no que fazem, mas nunca fomos muito próximos.
A partir da minha entrada na equipe, começamos a fazer reuniões de pauta após o programa, para decidirmos os temas e entrevistados do programa seguinte. Participava também da reunião a minha amiga e chefe Heloisa Paladino. Era uma verdadeira terapia! A gente ria até perder o ar com o Antonio Carlos contando histórias sobre seus quase 60 anos profissão. A cada reunião, ele nos enriquecia de conhecimento sobre a história dos meios de comunicações com seus heróis e vilões.
Deixei a parte mais importante para o final: os ouvintes! Os ouvintes do 'Show do Antonio Carlos' são diferentes, eles são amorosos, fiéis e nos tratam como membros da família. Até hoje, recebo ligações de pessoas que falam que oraram por mim quando souberam do assalto que sofri em janeiro. Pessoas de todas as classes sociais e idades. Algumas pessoas escolhiam comemorar seus aniversários com a gente no estúdio. Compravam bolo, salgadinhos, refrigerante e apareciam na rádio às 06h da manhã. Engordei alguns quilos por causa disso. Ah, que carinho gostoso! Alguns se tornaram amigos muito além do estúdio. Guardo com carinho todas as lembranças que ganhei nesses 12 meses. Hoje, dezenas de pessoas se espremeram no estúdio para acompanhar a última edição do programa. Foi emocionante! Apresentei a edição de 08h30 do jornal 'Rio em 1 Minuto' chorando, literalmente. Como prêmio deste período, fica a honra de ter produzido o belo programa especial de 40 anos do 'Show do Antonio Carlos, no dia 17 de março deste ano.

Farei parte do projeto da 'Nova Rádio Globo'. A partir da próxima segunda-feira, já estarei numa nova função e em novo horário, trocando às 4 da manhã pelas 4 da tarde. Conto com a torcida e compreensão dos amigos que ganhei neste último ano.
Ao Antonio Carlos e à Juçara, que deixaram a Rádio Globo hoje, desejo que muitos microfones se abram, seja o da Rádio Tupi ou de qualquer outra emissora. Estarei sempre na torcida por vocês, pois como diz o refrão da canção que escolhi para tocar no programa de hoje, "o show tem que continuar".
Muito obrigado por tudo e a todos que participaram deste momento especial da minha vida!

terça-feira, 18 de abril de 2017

Obrigado pela companhia!

Pensei em escrever este texto há duas semanas, quando o fato aconteceu, mas o tempo estava escasso na primeira metade deste mês. E como hoje é comemorado o 'Dia Nacional do Espiritismo', talvez essa era a deixa que eu precisava para separar um tempo para escrever sobre, o que pra mim é sempre libertador. Sou católico, sempre fui. Comecei a ser praticante aos 15 anos de idade, quando fiz Crisma. Logo em seguida, me tornei coordenador de Crisma e catequista na Paróquia Divino Salvador. Foram 5 anos dentro da igreja durante todos os fins de semana. Saí do trabalho pastoral meses antes de completar 20 anos, mas nunca deixei de crer na minha religião. Por causa disso, sempre fui muito cético com outras religiões. Mas respeito todas as religiões, sem exceção, pois aqui em casa sempre reinou o livre arbítrio religioso. Meu saudoso pai era diácono da Igreja Presbiteriana, enquanto minha mãe frequentava um centro espírita. 
Este texto não é religioso (ou não era pra ser). É sobre o meu pai, o Elton John e certezas.
Nos últimos 4 anos de vida, meu pai passou dois longos períodos internado. O primeiro foi em 2005, e o derradeiro em 2008. Durante as duas internações, havia um rádio ao lado da cabeceira da maca, que quando não estava sintonizado na JB FM, principalmente no horário do Iseumar Pereira, pois era o locutor preferido dele, estava tocando um CD de grandes sucessos do Elton John. Na década passada, era normal fazer cópias de CDs e deixar os originais guardados em casa. Eu carregava no carro um case só com cópias dos CDs que tinha em casa. O CD original do Elton John é da minha mãe, e como ela é muito cuidadosa e até um pouco ciumenta com os seus pertences, fiz um cópia da coletânea para não ter problema. Ainda dei um toque pessoal, adicionando duas canções que eu achava que faltavam no CD: 'I Want Love' e 'Empty Garden'.
Uma semana após a morte do papai, em janeiro de 2009, o Elton John se apresentou no Brasil. E o show de São Paulo foi transmitido ao vivo pela TV Globo. Dois dias depois, o show foi no Rio. Se foi difícil assistir ao show pela TV, não havia a mínima condição de ir à Apoteose.
Quando o papai saiu do hospital pela primeira vez, eu fazia questão de colocar o CD do Elton John para ele ouvir no carro. Na verdade, sou um ótimo DJ automotivo. Sempre fiz playlists para cada situação: ida e volta para o trabalho, programas com amigos, encontros amorosos, viagens e por aí vai...
Desde a morte do papai, guardo a cópia da coletânea do Elton John como um tesouro. Infelizmente, a mídia se deteriorou com o tempo e algumas músicas não tocam mais.


Depois de 2009, o Elton John se apresentou novamente no Rio em 2011, 2014 e 2015. Não criei coragem nessas ocasiões. Mas com o anúncio dos shows no Brasil neste ano, decidi que havia chegado a hora. O Elton John já passou dos 70, daqui a pouco ele se aposenta e eu ficaria eternamente frustrado por não ter ido em nenhum show. Foi o mesmo pensamento que tive ao comprar o ingresso para o Rolling Stones, em 2015, e para o Black Sabbath, no ano passado.
Já assisti aos shows de todos os artistas que mais admiro: Soundgarden, Chris Cornell, Pearl Jam, Stone Temple Pilots, Oasis, Faith No More, Alice in Chains, Foo Fighters, Smashing Pumpkins, Dave Matthews Band, Ira!, Titãs, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Lobão, Jay Vaquer, Pedro Mariano, Paulinho Moska e Ney Matogrosso. Já assisti a alguns desses artistas ao vivo mais de 5 vezes. Mas 3 foram especiais, verdadeiras realizações de sonhos da adolescência: Soundgarden, o primeiro do Chris Cornell e o primeiro do Pearl Jam. Porém, o que senti durante o show do Elton John, no último dia 1º, foi algo que até então era desconhecido. Ao mesmo tempo que doía de saudade do papai, como nunca antes havia acontecido, eu conseguia sentir a presença dele no show comigo. Chorei durante a primeira meia hora inteira do show. Minhas lágrimas copiosas só não chamaram tanta atenção dos fãs ao meu redor, pois o show aconteceu sob um temporal que atingiu o Rio naquela noite. Enquanto cantava com a alma canções como 'Daniel', 'Tiny Dancer', 'Rocket Man', 'Skyline Pigeon' e 'Someone Saved My Life Tonight', sentia que estava pagando uma dívida, assistindo ao show por mim e pelo papai, pois estávamos "juntos" novamente naquele momento.


O show terminou e voltei para casa em êxtase e sem voz. Na noite do dia seguinte, mostrei as fotos e vídeos do show para a minha mãe e minha irmã. Contei o que tinha sentido, e em seguida, percebi que a minha mãe estava emocionada. Ela virou para a minha irmã e perguntou: "Será que foi pra isso que ele veio?". Minha irmã respondeu afirmativamente. Fiquei sem entender o que estava acontecendo e questionei a minha mãe. Ela respondeu que, na noite anterior, enquanto eu estava no show, ela havia sonhado com o papai, o que não é comum acontecer. No sonho, ele estava com uma ótima aparência, muito bem vestido com um terno preto e uma camisa verde. Mas minha mãe ficava brava, pois ele se arrumava e saía de casa antes do almoço de domingo sem dizer o destino. Não me restam dúvidas, pagamos a dívida juntos, pois ele estava comigo no show.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Quais são as suas dívidas?

Estou longe de ser um gato, mas já gastei pelo menos 5 vidas nos últimos 6 anos. Nesse período, passei por situações que colocaram em risco a minha integridade física: dois graves acidentes de carro, dois assaltos à mão armada e um sequestro relâmpago. Mas graças a Deus estou aqui pra contar a história, são e salvo! O caso mais recente aconteceu na semana passada, quando fui assaltado a caminho do trabalho, num dos acessos à Linha Amarela. Perdi meus pertences, fui jogado ao chão e levei um chute nas costas. Porém, ganhei mais uma oportunidade da vida! Conversando com uma amiga, ela disse: "Renato, acho que está na hora de você reavaliar sua vida, suas atitudes. Deus te deu mais uma chance. Aproveita!"
Pensei bastante no que ela me disse. Mesmo não sendo um assunto agradável, não dá para ignorar a morte, pois não podemos fugir dela. Se algo pior tivesse acontecido na semana passada e nesse momento eu não estivesse mais aqui, quais seriam as dívidas que eu teria deixado? Pra quantas pessoas eu deveria ter pedido perdão? Será que alguém carregaria para o resto da vida uma mágoa causada por mim?
Esse foi o recado dado pela minha amiga, que um dia foi minha namorada. Na verdade, ela foi a primeira, há mais de 15 anos. Como passamos anos sem nos falarmos, tenho certeza que ela falou baseada em sua própria experiência comigo.
Outro conselho que recebi há alguns anos e que me fez uma pessoa mais feliz, foi de uma ex-colega de trabalho com quem eu tive um breve relacionamento. Tínhamos marcado de viajar num fim de semana. Mas ela perdeu a hora e acordou três depois do horário combinado para pegarmos a estrada. Em momentos como esse, um dos meus maiores defeitos vem à tona: fico cego de razão. Cancelei a viagem e joguei fora 48 horas de descanso e boas risadas por causa de 3 horas de atraso. Na ocasião, ela me disse apenas uma frase: "Renato, você precisa ser mais freestyle". Só depois de algum tempo, percebi que começar a encarar a vida de uma forma mais leve, deixando algumas regras e caprichos de lado, me faria uma pessoa melhor.
O amor tem que ser leve, seja no âmbito familiar, das amizades ou dos relacionamentos amorosos. Admito que tenho dificuldade de lidar com as atitudes que não concordo das pessoas que amo. Ainda estou aprendendo que é melhor ser feliz do que ter razão. Às vezes, isso faz de mim uma pessoa intolerante e acaba potencializando as minhas decepções. 
Fiquei alguns anos sem falar com o meu melhor amigo de infância, em períodos distintos. A mesma brincadeira que os meus colegas faziam e eu não me importava, virava a 3ª guerra mundial quando era feita por ele. Aquela famosa história do "até tu, Brutus?"
Nos últimos dias, lembrei de pessoas que foram importantes em períodos da minha vida, mas que acabei me afastando por causa de atitudes que não eram para terem sido levadas tão a sério. Senti vontade de procurar todas essas pessoas e falar: "Deus me deu mais um chance! Desculpe-me por ter agido de forma imatura e intolerante."
Criei coragem e procurei a primeira pessoa da lista, que é a que considero mais importante. Não deu muito certo, mas acredito que um dia algo também a faça mudar, e aí será uma dívida a menos nesse mundo.
Não desejo que ninguém passe por algo semelhante ao que aconteceu comigo na semana passada. Por isso, aproveite as chances que são dadas todos os dias ao acordar. Pode ser uma oportunidade para estudar e descobrir a cura do câncer ou para fazer uma pessoa sorrir. A importância é a mesma!

Você já pensou em quais são as suas dívidas?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Não são apenas ouvintes

Desde quando criei o perfil 'profissional' no Facebook, em março de 2015, fui adicionado por quase 4 mil pessoas. Algumas me adicionaram para pedir brindes, outras para sugerir reportagens, porém, a grande maioria foi motivada por um sentimento de carinho e admiração pelo meu trabalho.
Como em qualquer círculo social, acabamos ficando mais próximos de algumas pessoas. A Ignez Sousa Ribeiro sempre foi a amiga-ouvinte mais próxima. Trocávamos mensagens quase toda semana. No início de 2015, apresentei durante alguns meses o programa 'Sucessos da Globo' e logo depois cobri as férias do Alexandre Ferreira no 'Bailaço da Rádio Globo', e a Ignez passava as madrugadas de domingo acordada prestigiando o meu trabalho. Em maio do ano passado, saí de licença para operar o joelho e ela sempre me enviava energias positivas com desejos de rápida recuperação. Se eu tirasse um período de folga mais longo, ela me mandava uma mensagem para perguntar se estava tudo bem. Nos encontramos apenas uma vez, quando ela foi à rádio buscar um brinde e fiz questão de recebê-la. Conversamos bastante e nos despedimos com um abraço apertado. E foi assim que construímos uma amizade, verdadeira e recíproca de carinho. No último aniversário dela, no dia 09 de setembro, liguei pra ela, o que a deixou surpresa e feliz. Lembro-me de ter dito na ligação que "para amigos de verdade, mensagens na rede social não bastam".
Nossa última troca de mensagens foi no dia 11 deste mês. Uma semana depois, minha amiga Ignez foi para o Céu. Infelizmente, só soube da notícia hoje, pois horas antes dela falecer, viajei para aproveitar a folga da semana de Natal numa cidadezinha do interior do Rio, pois precisava recarregar as energias depois de um ano tão difícil. Voltei ontem, e ao acessar o Facebook agora, me deparo com a triste notícia dada pela também amiga-ouvinte Fatima Cavalcanti, que era a melhor amiga da Ignez.
Peço a que todos que lerem essa mensagem, que coloquem o nome da minha amiga Ignez Sousa Ribeiro em suas orações para que Deus possa recebê-la de braços abertos e que ela encontre a paz merecida.
Tenho certeza que a Ignez levou para o Céu o radinho da Rádio Globo e vai continuar nos ouvindo lá de cima.
Ignez, obrigado pela amizade, carinho e lealdade!


Descanse em paz!

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um sonho que não era meu

A minha geração de estudantes de jornalismo deu muita sorte, pois ingressou no mercado de trabalho a tempo de participar de 3 grandes coberturas: manifestações de 2013, Copa do Mundo e Olimpíada. Das duas primeiras, participei do início ao fim. Mas não acreditava que aconteceria o mesmo durante os Jogos Olímpicos. Quando o Rafael Marques, coordenador de esporte do Sistema Globo de Rádio, disse que havia me credenciado, pensei: “O Rafa está louco, ele sabe que não entendo nada de esportes que não tenham piloto e motor.”
Admito que existia uma má vontade de minha parte em aceitar os Jogos Olímpicos, pois o Parque Olímpico, principal local de competições, foi construído no solo sagrado do saudoso Autódromo de Jacarepaguá.
Faltando um mês para o início da Olimpíada, houve uma mudança na escalação da equipe de cobertura dos Jogos. Torci para ficar de fora. Mas os gestores do esporte mantiveram a minha permanência na equipe.
Não tinha jeito, eu participaria da Estação Rádio Globo CBN, uma rádio criada exclusivamente para a cobertura da Olimpíada, 24 horas por dia. Mais uma vez pensei: “Isso é loucura! O SporTV vai transmitir a Olimpíada em 16 canais, não tem como fazer o mesmo no rádio com apenas 1 canal (dial).”

A reunião realizada na véspera da abertura, mostrou que eu estava errado novamente. Nunca vi uma equipe tão comprometida e motivada. Foi aí que caiu a ficha, fazer a história com aquelas pessoas era um grande presente. Voltei para casa sorrindo, porém inseguro, algo que não é muito comum. Na noite que antecedeu o início da cobertura, eu não consegui dormir. Senti a pressão de participar de algo tão grande sem ter o domínio necessário do assunto. Mas já no primeiro dia, ficou evidente que a palavra ‘equipe’ passaria a ter outro significado. Infelizmente, profissionais da área de comunicação costumam pecar muito por causa da vaidade (não me excluo), o que sempre compromete o resultado do trabalho em grupo. Contudo, desta vez foi diferente. Uma equipe com mais de 50 pessoas unidas pelo mesmo ideal: fazer história no rádio. E fizemos! Diretores, gerentes, coordenadores, chefes de reportagem, apresentadores, narradores, repórteres, produtores, operadores de áudio e estagiários, todos se ajudando 24 horas por dia. Compartilhávamos nossas experiências diariamente em um grupo de whatsapp, o que facilitava muito a vida do colega escalado para ir ao mesmo lugar no dia seguinte.
Mas eu não era o único intruso no esporte, mais oito companheiros das coberturas factuais da cidade estavam passando pelo mesmo desafio. Só nos restou estudar muito para não vacilarmos no ar. Fizemos caminhadas quilométricas diariamente.Trabalhamos mais de 10 horas todos os dias, quase sempre em pé. Sentimos fome, sede, calor e frio. Mesmo com tudo isso, fomos incansáveis. Nada tirou o sorriso do nosso rosto.
Foi incrível! Pude me reaproximar de amigos, me encantar por pessoas com quem antes eu não simpatizava e trabalhar com monstros do rádio esportivo brasileiro. Nenhuma modalidade passou batida na Estação. Fizemos em um canal de rádio o que a principal emissora esportiva de TV do país fez em 16. 
Ontem, na comemoração da equipe após o encerramento, o Marcos Guiotti me disse algo e passei a compartilhar do mesmo pensamento: “Os próximos livros escritos sobre rádio para universitários da área de comunicação, não poderão ignorar o que fizemos nos últimos 15 dias.”
Sentirei falta dos Jogos Rio 2016. Mas a saudade da Estação Rádio Globo CBN será muito maior.
Aos que me proporcionaram essa experiência fantástica, muito obrigado!

domingo, 31 de julho de 2016

Adeus mais uma vez

No dia 05 de março de 2006, publiquei um texto na comunidade do orkut da Rádio Cidade chamado ‘Desabafo de um ouvinte’. Aquele domingo marcou o fim da primeira fase da Rádio Cidade. O orkut estava no auge e os ouvintes utilizaram a rede social para expressar os mais diversos sentimentos. O meu texto foi o tópico mais movimentado da comunidade da rádio naquela noite, foram centenas de comentários de ouvintes e funcionários, alguns que eu nem conhecia pessoalmente, mas que, a partir daquele dia, me adicionaram e se tornaram meus amigos. É o caso do Sérgio Bitenka, que naquele dia fez uma das despedidas mais emocionantes da história do rádio brasileiro.
Como ele trabalhava no primeiro horário, nunca havia o encontrado durante as minhas visitas à rádio. Um ano depois, nos tornamos amigos ao ponto de nos encontramos para beber chopp e jogar conversa fora. Foi ele quem me apresentou ao diretor da Escola de Rádio, Ruy Jobim (este fato mudou o rumo da minha vida). Depois que terminei o curso de locução básica na Escola de Rádio, o Sergio me indicou para fazer um teste para vaga de locutor na também extinta Multishow FM. Tudo isso por causa do ‘Desabafo de um ouvinte’. Foi a primeira vez que alguém disse que havia chorado lendo algo escrito por mim.
Hoje também é domingo, dia 31 de julho de 2016, um pouco mais de 10 anos depois, escrevo novamente pelo mesmo motivo.
O rádio sempre esteve presente em meu lar. Minha mãe era ouvinte da 98 FM - É Só Sucesso, não perdia um programa do Heleno Rotay. Meu saudoso pai era fanático pelo Flamengo e não perdia um jogo do Futebol Show da Rádio Globo. Na casa dos meus padrinhos, também só dava Rádio Globo. O Haroldo de Andrade fazia-se presente em todas as manhãs que passei com o tio Aureo e a tia Rosa. 
Cresci na vila onde surgiu o Piu-Piu & Sua Banda, uma das principais bandas do cenário do rock independente do Rio de Janeiro, na década de 1990. O local era frequentado pelos principais músicos da 'Geração Garage'. É claro que o rock seria o meu estilo musical favorito.
Por causa disso, numa tarde de 1996, aos 12 anos de idade, resolvi ligar o rádio-relógio do meu quarto, que até então só servia para não me deixar ir atrasado para o colégio. Fui passeando pelo dial e encontrei a Rádio Cidade. Na época, a Monika Venerabile era a principal locutora da emissora e o programa apresentado por ela, o Cidade do Rock, era o carro chefe da rádio e tocava músicas inimagináveis para os dias de hoje, como ´Tora Tora´ do Raimundos. Como sempre fui politicamente incorreto, a Cidade me conquistou logo de cara. O pós-grunge estava no auge com diversas bandas, muitas delas ficaram no 'one hit wonder', como o Spacehog, Deep Blue Something, Dishwalla, The Nixons, entre outras. Também fazia muito sucesso uma nova geração do britpop com The Verve, Oasis e Blur. O punk rock tinha destaque na programação com Green Day e Offspring. No rock brazuca, era o momento do Raimundos, Planet Hemp e o Rappa. Além de tudo isso, havia espaço para bandas independentes no horário nobre da emissora. A emoção de ouvir os meus amigos do Piu Piu & Sua Banda tocando pela primeira vez no principal programa da rádio foi indescritível.
Comecei a ligar para a rádio pedindo música todos os dias. A voz inconfundível de um garoto chegando à puberdade fez com que o atendente da rádio (acho que o nome dele era Flávio) já me atendesse com 'oi, Renato' logo após o meu 'alô'. Como foi a fase mais rock da rádio em questão de programação musical e de atitude dos locutores no ar, não era normal ter ouvintes de 12 anos de idade, e logo ganhei o título de ouvinte mais jovem da rádio. 
No dia 11 de junho de 1996, enquanto eu assistia na TV Record as imagens da explosão na praça de alimentação de um shopping em Osasco, ouvia na Rádio Cidade a estreia de um programa chamado InterCidade, apresentado pelo locutor Renato Bruno. Quando liguei para pedir uma música, o atendente fez o convite: “todo mundo da rádio quer te conhecer, vem amanhã participar do programa ao vivo no estúdio”.
Lá fui eu acompanhado pela minha mãe e minha irmã ao sétimo andar do famoso prédio da Avenida Brasil, número 500. Que tarde fantástica! Todos os funcionários da rádio me trataram muito bem. Entrei em um estúdio de rádio pela primeira vez e participei do programa ao vivo entrevistando a produtora Viviane Branco. A Vivi produzia o programa SexCidade, que era apresentado pela Adriana Riemer e tinha a participação de uma sexóloga. Eu nem beijava na boca, mas já sabia tudo sobre sexo. O programa ia ao ar de segunda a sexta, às 09h da manhã, outro fato inimaginável nos dias de hoje.
Que me perdoem as minhas ex-namoradas, mas aquela tarde é a lembrança mais marcante que tenho de um dia dos namorados. Chegava do colégio e já ligava o rádio na Cidade. O locutor que fazia o horário do almoço era o Luciano Oliva, hoje na Jovem Pan de São Paulo.
A Rádio Cidade havia se tornado a minha principal companhia, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Em 1999, a emissora passou por uma crise de identidade, deixando o rock de lado, até axé chegou a tocar. Mas em 2000, a parceria com a 89 FM – A Rádio Rock de São Paulo, deu um gás novo para a Rádio Cidade. A formação da Rede Rock de Rádio beneficiou bastante a emissora carioca, que logo de cara foi a rádio oficial do Rock in Rio 3, em janeiro de 2001. 
Foi a partir de 2001, que comecei a sonhar em ser locutor de rádio. Na minha opinião, a equipe de locutores da Rádio Cidade em 2001/2002 foi a melhor do dial FM do Rio nos últimos 20 anos: Serginho Bitenka, Rodolfo Becker, Demmy Morales, Rhoodes Lima, Débora Santos, Edu Fontes e o jovem Ronan Tardin. Nos anos seguintes, aconteceram mudanças apenas no horário noturno e nos fins de semana. Zeca Lima, Casé, Fabiano, Carlos Alberto e Carla Machado também integraram a equipe de locutores da Cidade – A Rádio Rock entre 2003 e 2006.
Eu admirava todos os locutores da equipe 2001/2002, mas o Rhoodes era o meu ídolo na locução. Sempre foi a minha maior referência como locutor de rádio musical. Além da voz potente e da locução precisa, ele é perspicaz e irônico no tom ideal. Os ouvintes tentavam sacaneá-lo no ar, mas o pensamento dele estava sempre um passo a frente, o que deixava os ouvintes sem reação. O Rhoodes ingressou na Cidade em 1997, mas só se tornou o principal locutor da emissora após a saída da Monika Venerabile, em 1999. Quando eu treinava locução na minha rádio imaginária, as trocas de horário sempre eram com o Rhoodes. Ele apresentava o programa Hora dos Perdidos, do qual novamente virei figurinha carimbada. Quando algum ouvinte caía em cima da hora, me ligavam para participar. Acabei me tornando amigo dos três co-apresentadores que passaram pelo programa: Claudio BB (BB Monstro), Camille e Paulinho (Calça-Frouxa, Rabugentos, Coruja)
Quando ingressei como estagiário no Sistema Globo de Rádio, em fevereiro de 2013, o Rhoodes era locutor da Beat98. Fui ao estúdio da Beat, dei um abraço nele e agradeci: “se estou aqui hoje, você é um dos responsáveis por isso”. 
Outro fato marcante da época Cidade – A Rádio Rock (2001 – 2006), foi a interatividade entre ouvintes e funcionários da rádio pelo chat no site da emissora. Era como um Bate-Papo Uol, mas só de ouvintes da rádio. Eu e mais dois ouvintes organizamos o primeiro encontro do Chat Cidade. Foi um sucesso e contou com a participação do Webmaster da rádio, Marcio Norris. O grupo não parava de crescer, e a cada show ou encontro marcado, dezenas de novos frequentadores apareciam. Mas chegou um momento em que o que havia começado como um grupo heterogêneo, estava dividido em vários subgrupos, causando rixas, brigas e muita intriga. Durante algum tempo assumi o papel de líder da ala mais tradicional (leia-se careta), mas depois cansei da confusão e abandonei de vez o “projeto” que idealizei. Mas no fim das contas o saldo foi positivo: jovens com o mesmo gosto musical curtindo shows, paquerando, compartilhando experiências... Vários casais estão juntos até hoje e algumas crianças vieram ao mundo por causa do Chat Cidade. Até hoje tenho pelo menos 5 amigos que conheci nessa época e volta e meia nos encontramos. 
Os boatos do fim da rádio começaram no início de fevereiro de 2006, mas a confirmação só veio na segunda quinzena daquele mês: a Rádio Cidade iria acabar no início do mês seguinte.
Foi uma bomba, tanto para os ouvintes, quanto para o mercado do rádio carioca. Não queria acreditar que perderia a companhia de todos os momentos. A Rádio Cidade foi a trilha sonora de saídas com amigos, confraternizações, paixões, dos momentos bons e também dos ruins. 
A equação é simples: alugar o dial dá muito mais lucro do que manter uma rádio.
Nem havia ingressado profissionalmente no rádio e já sabia que nunca realizaria o sonho de anunciar minhas músicas preferidas ou de trocar de horário com os profissionais que me inspiraram. O dia 05 de março de 2005 foi, sem dúvida, um dos mais tristes da minha juventude. Chorei de soluçar quando o Serginho se despediu dos ouvintes e fez a passagem de horário com o Demmy Morales, às 20h. 
Uma parte importante da minha vida também chegava ao fim.
Não desisti do rádio, só mudei a função que queria exercer nele. Resgatei lembranças dos meus tempos de criança ouvindo Haroldo de Andrade com meus padrinhos ou os jogos do Flamengo com o papai. Queria ser repórter da Rádio Globo, a outra rádio que marcou a minha vida. O desejo era trabalhar no Amarelinho, como o Alberto Brandão, que eu tentava imitar sempre depois que ele entrava no ar nas transmissões esportivas. Meu pai achava um barato. Abandonei a faculdade de Publicidade e Propaganda e investi em cursos na Escola de Rádio. Logo depois, comecei a cursar faculdade de Jornalismo. O Ruy Jobim me disse uma vez: “Se você quiser de verdade, você vai conseguir!” Ele tinha razão. Realizo este sonho todos os dias desde fevereiro de 2013.
Mas o que ninguém poderia imaginar, aconteceu: a Rádio Cidade voltou! 
O retorno foi em 10 de março de 2014. Um dia qualquer, né? Não. Foi o dia em que completei 30 anos de idade. Belo presente! Minha relação com a Rádio Cidade já não era a mesma, pois o sonho de ser locutor da rádio ficou no passado. Mas era ótimo saber que poderia ligar o rádio e escutar minhas músicas preferidas ou ouvir novamente profissionais que foram muito importantes na minha formação como radialista. Tive o privilégio de trabalhar com alguns deles na Rádio Globo ou de conhecer melhor outros. Foi o caso do famoso redator e produtor Julio Psicopata, que hoje em dia é o meu grande amigo Julio Barbosa. Voltei a frequentar a rádio, não mais como ouvinte, e sim como alguém que queria matar saudade de amigos. 
Torci muito pelo sucesso da nova fase da Rádio Cidade, pois era formada por gente do bem, talentosa e que tinha prazer no que fazia. 
Surpreendentemente, no último dia 21, foi feito o anúncio que novamente a rádio acabaria. Praticamente todos os funcionários foram demitidos no mesmo dia. Fiquei muito triste, nem dormi direito naquela noite, pois desta vez não seriam apenas os meus ídolos que ficariam desempregados, eram os meus amigos, pessoas que fazem parte do meu dia a dia, independente do crachá que carregam no pescoço. A Cidade sai do ar novamente daqui a algumas horas. Perdem os profissionais, os ouvintes, os artistas, o rock e o mercado de rádio do Rio de Janeiro. Novamente a equação ‘aluguel do dial = + lucro’ falou mais alto.
A Rádio Cidade manteve a sua tradição de ser pioneira até neste momento, pois é a primeira rádio com dial próprio que acaba pela segunda vez no Rio.
Enquanto redigia este texto, tocou Black Hole Sun, a minha música preferida. Provavelmente, será a última vez que irei ouvi-la em uma rádio do Rio. Uma despedida icônica! 


Obrigado, Cidade!

Força, amigos!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Arrumando as gavetas

Arrumei as gavetas, físicas e emocionais. Carrego no lado esquerdo do peito um arquivo de aço com duas gavetas. Abro a primeira gaveta (de cima) todos os dias quando acordo. Ela funciona como um follow-up, confiro o que está dentro, faço correções e atualizações, mas não tenho o poder de adicionar nada e nem de impedir que algo entre. É preciso tomar de assalto para estar presente neste espaço. Familiares e verdeiros amigos são vitalícios na primeira. É a gaveta que me sustenta no dia a dia. 
Na segunda gaveta (de baixo), guardo o que de relevante esteve na primeira. Porém, tenho mais autonomia na segunda gaveta. Só coloco o que eu quero e na migração posso jogar fora o que não merece ser guardado.
Se a mudança de gaveta for inevitável, a quantidade de coisas que vou arquivar é o parâmetro para saber se a valeu a pena. Além de espaçosa, a segunda gaveta está protegida com naftalina, preservando o conteúdo livre de traças e outras pragas até o fim da vida. 
Nos últimos dias, arquivei lugares, planos, aromas, sabores, expressões, canções, filmes, sorrisos, sentimentos e pequenos detalhes, como ter aprendido a fazer bolinhas com os pares de meia. 
O período de migração nunca é fácil, mas é necessário. O motivo da mudança pode ser a morte, mas na maioria das vezes a migração é causada pela vida e suas decisões.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O destino não dá uma segunda chance

Em agosto de 2014, comprei um Fusca. Mas não é um Fusca normal, comprei um tesouro: 1971, único dono, todo original, íntegro de carroceria e motor, e com nota fiscal de fábrica em perfeito estado. 
Era mais do que eu procurava naquele momento, pois pretendia aproveitar a companhia e incentivo do meu grande amigo Fabio e me tornar também um antigomobilista. Como o carro já tem mais de quarenta anos, precisava restaurar o interior e pintar a carroceria. 
Não passou outra pessoa pela minha cabeça, o profissional ideal para esse serviço era o Chicão, lanterneiro da minha confiança desde 2005. Como sou conhecido pelo extenso histórico de acidentes de trânsito, o Chicão fez serviços em seis dos oito carros que tive até hoje. Nos encontrávamos com frequência. 
Ele me ganhou como cliente após fazer um desafio. Meu segundo carro foi um Fiesta, apelidado de 'Gasparzinho' por um amigo de trabalho. No final de 2005, bati forte com o Gasparzinho na traseira de um Santana. Estava em busca de um lanterneiro para fazer o serviço e vários profissionais falaram que seria necessário trocar o capô. Quando entrei na Auto Mecânica Jofa, localizada na Estrada do Cafundá, na Taquara, fui atendido pelo Chicão, proprietário da oficina. Ele olhou o carro, fez o orçamento e disse que não precisaria trocar o capô. Questionei, mas ele respondeu sem titubear: "Se o carro não ficar bom, você não paga o serviço". O carro ficou igual 0km. Estava ali instituída uma relação de confiança e respeito. 
Passei a indicá-lo para todas as pessoas que conheço. Os que aceitaram a indicação, ficaram impressionados com a perfeição do serviço. 
Voltando ao Fusca, deixei na oficina do Chicão na semana seguinte a compra. Alguns meses antes, a diabetes havia levado metade de uma de suas pernas. Enquanto a prótese não ficava pronta, ele improvisou uma com pedaços de uma muleta e a forma de um sapato. Era algo incrível! 
Ele me contou que os médicos da ABBR (Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação) ficaram tão encantados com a invenção criada por ele, que adiantaram o processo de confecção da prótese definitiva para que pudesse voltar a levar uma vida normal o mais rápido possível. 
Como eu estava ciente do estado de saúde dele, deixei o Fusca lá dizendo: "Não precisa ter pressa, Chicão. Esse carro será meu hobby e só confio em você para realizar este serviço." Ele levou minha fala ao pé da letra. Estacionou o Fusca em um canto da oficina, desmontou todo e em quase dois anos, só mexeu no assoalho, nas caixas de ar e nos pés de coluna. 

Fusca em agosto de 2014, na entrada da Auto Mecânica Jofa

Nos últimos dois anos, visitei a oficina a cada dois meses e sempre ouvia que o carro ficaria pronto no mês seguinte. Ele priorizava os carros mais novos e como sabia da minha consideração por ele, me enrolava na maior cara de pau, mas nunca consegui sentir raiva dele. Decidi que era mais fácil tirar o Fusca de lá do que acabar me aborrecendo, pois jogaria no lixo 11 anos de confiança e respeito. Acordei hoje determinado a dar o ultimato nesta situação. Pesquisei outra oficina, vi o preço do guincho e fui à Auto Mecânica Jofa depois do trabalho. Chamei o Fabio para ir comigo, pois sabia que ele não me deixaria cair novamente na lábia do senhorzinho de fala mansa. Ao chegarmos na oficina, às 13h, avistamos o Fusca parado, desmontado, bem distante do carro que eu imaginava levar para as exposições. Perguntei pelo Chicão, pronto para informar que retiraria o carro da oficina, mas ele não estava lá. Um funcionário me informou que o Chicão havia falecido na tarde de ontem, em decorrência de um AVC. O seu corpo estava sendo velado naquele momento, pois o enterro estava marcado para às 14h. Fiquei sem palavras, olhei para o Fusca parado, abandonado e vi o meu retrato após receber a triste notícia de forma tão inesperada. A vida quis que a minha visita de hoje fosse realmente o ultimato. 
Descanse em paz, Chicão!

segunda-feira, 7 de março de 2016

O preço do amor

Minha mãe sempre fala: "O Renato só ama de verdade os gatos". Essa frase nunca me atingiu, pelo contrário, pois sentir um amor verdadeiro, sem cobranças, interesses ou prazo de validade, é um privilégio. Conheço muitas pessoas que não tiveram essa experiência. Nunca fui uma pessoa solitária, nunca mesmo. Sempre estive rodeado da família, grandes amigos, namoradas... Porém, só esses pequenos animais conseguiram tirar o melhor do meu lado humano. Se um dia alguém me vir sorrindo em frente a um computador, pode ter certeza que não estou assistindo Porta dos Fundos, será algum vídeo bobo de travessuras de felinos.
Peguei meu primeiro gato, o Frajola, em 1997. Era um lorde: educado e imponente. Respeitado por todos os outros gatos e até por cachorros. Morreu em 2009, vítima de um tumor. Na verdade, 2009 foi um ano tenebroso por causa de grandes perdas: papai, um amigo de infância, um vizinho que era um tio e o meu filho Frajola. Filho, isso mesmo.
Eram cinco aqui em casa até a manhã desta segunda-feira. Cheguei do trabalho há pouco, mas só tinha um. Brooke, a mais distante de mim, herdeira do reinado que o Frajola deixou vago. Tive alguns problemas com uma vizinha grávida nas últimas semanas por causa dos gatos. Não há o que discutir com uma mulher grávida, ela sempre terá a razão. Só me restou uma opção: doar meus filhos. Fui pai, politicamente incorreto ao extremo. Falava com eles coisas capazes de estragar a formação do caráter de qualquer criança. No entanto, acho que concordavam com os meus posicionamentos.
Como era bom assistir telejornais com eles, todos os personagens que apareciam nas reportagens eram alvos de comentários. Como confiava em meus filhos, sabia que eles não espalhariam os meus pensamentos por aí. Eles também nunca questionaram meus comentários enquanto assistíamos corridas juntos. Tenho certeza de que eles acreditavam que realmente entendo de automobilismo. Também eram fãs do Soundgarden, pois nunca reclamaram do som no volume máximo e nem dos meus gritos tentando imitar os agudos do Chris Cornell. Durante os anos que dividiram espaço com a minha bateria, foram os únicos que nunca protestaram enquanto eu tocava. Sempre que me arrumava para encontrar uma nova pretendente, eu avisava: "vocês vão ganhar uma nova madrasta". Eles me respondiam com olhares, miados, lambidas, mordidinhas, arranhões ou fugas. Uma relação de cumplicidade, paciência e confiança, que acredito não ser capaz de ter com nenhuma pessoa. Praticamente, todos os meus gatos foram batizados com nome de pilotos, músicos ou personagens de séries que gosto.
Ontem à noite, quando voltava do trabalho, já sabia qual seria o destino deles na manhã de hoje. No som do carro, tocava o CD " All That You Can't Leave Behind". Foi na introdução da música " When I Look At The World" que a ficha caiu. A noite, as ruas vazias, a música, o vento e a saudade antecipada. 

Me despedi de todos antes de ir trabalhar hoje cedo. Agradeci a Sophia por tomar conta do meu carro na garagem todos os dias. Pedi desculpas ao Matt por todas vezes que o chamei de afrescalhado. Ao Chris, pedi perdão por tê-lo retirado das ruas há alguns meses e não ter cumprido a promessa de cuidar dele para sempre. Para doar a Bia tive que pedir a bênção do meu saudoso pai, pois era a gata preferida dele. Não havia óculos escuros no mundo que pudessem disfarçar meu olhar perdido no trajeto até o trabalho. A casa está assustadoramente mais vazia, a Brooke continua sem entender o que aconteceu e eu sigo pedindo a Deus que eles possam ensinar a seus futuros pais o que é o amor. Perdi o privilégio, agora, só sou mais um.

(Chris Cornell no dia que o tirei das ruas)