terça-feira, 18 de abril de 2017

Obrigado pela companhia!

Pensei em escrever este texto há duas semanas, quando o fato aconteceu, mas o tempo estava escasso na primeira metade deste mês. E como hoje é comemorado o 'Dia Nacional do Espiritismo', talvez essa era a deixa que eu precisava para separar um tempo para escrever sobre, o que pra mim é sempre libertador. Sou católico, sempre fui. Comecei a ser praticante aos 15 anos de idade, quando fiz Crisma. Logo em seguida, me tornei coordenador de Crisma e catequista na Paróquia Divino Salvador. Foram 5 anos dentro da igreja durante todos os fins de semana. Saí do trabalho pastoral meses antes de completar 20 anos, mas nunca deixei de crer na minha religião. Por causa disso, sempre fui muito cético com outras religiões. Mas respeito todas as religiões, sem exceção, pois aqui em casa sempre reinou o livre arbítrio religioso. Meu saudoso pai era diácono da Igreja Presbiteriana, enquanto minha mãe frequentava um centro espírita. 
Este texto não é religioso (ou não era pra ser). É sobre o meu pai, o Elton John e certezas.
Nos últimos 4 anos de vida, meu pai passou dois longos períodos internado. O primeiro foi em 2005, e o derradeiro em 2008. Durante as duas internações, havia um rádio ao lado da cabeceira da maca, que quando não estava sintonizado na JB FM, principalmente no horário do Iseumar Pereira, pois era o locutor preferido dele, estava tocando um CD de grandes sucessos do Elton John. Na década passada, era normal fazer cópias de CDs e deixar os originais guardados em casa. Eu carregava no carro um case só com cópias dos CDs que tinha em casa. O CD original do Elton John é da minha mãe, e como ela é muito cuidadosa e até um pouco ciumenta com os seus pertences, fiz um cópia da coletânea para não ter problema. Ainda dei um toque pessoal, adicionando duas canções que eu achava que faltavam no CD: 'I Want Love' e 'Empty Garden'.
Uma semana após a morte do papai, em janeiro de 2009, o Elton John se apresentou no Brasil. E o show de São Paulo foi transmitido ao vivo pela TV Globo. Dois dias depois, o show foi no Rio. Se foi difícil assistir ao show pela TV, não havia a mínima condição de ir à Apoteose.
Quando o papai saiu do hospital pela primeira vez, eu fazia questão de colocar o CD do Elton John para ele ouvir no carro. Na verdade, sou um ótimo DJ automotivo. Sempre fiz playlists para cada situação: ida e volta para o trabalho, programas com amigos, encontros amorosos, viagens e por aí vai...
Desde a morte do papai, guardo a cópia da coletânea do Elton John como um tesouro. Infelizmente, a mídia se deteriorou com o tempo e algumas músicas não tocam mais.


Depois de 2009, o Elton John se apresentou novamente no Rio em 2011, 2014 e 2015. Não criei coragem nessas ocasiões. Mas com o anúncio dos shows no Brasil neste ano, decidi que havia chegado a hora. O Elton John já passou dos 70, daqui a pouco ele se aposenta e eu ficaria eternamente frustrado por não ter ido em nenhum show. Foi o mesmo pensamento que tive ao comprar o ingresso para o Rolling Stones, em 2015, e para o Black Sabbath, no ano passado.
Já assisti aos shows de todos os artistas que mais admiro: Soundgarden, Chris Cornell, Pearl Jam, Stone Temple Pilots, Oasis, Faith No More, Alice in Chains, Foo Fighters, Smashing Pumpkins, Dave Matthews Band, Ira!, Titãs, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Lobão, Jay Vaquer, Pedro Mariano, Paulinho Moska e Ney Matogrosso. Já assisti a alguns desses artistas ao vivo mais de 5 vezes. Mas 3 foram especiais, verdadeiras realizações de sonhos da adolescência: Soundgarden, o primeiro do Chris Cornell e o primeiro do Pearl Jam. Porém, o que senti durante o show do Elton John, no último dia 1º, foi algo que até então era desconhecido. Ao mesmo tempo que doía de saudade do papai, como nunca antes havia acontecido, eu conseguia sentir a presença dele no show comigo. Chorei durante a primeira meia hora inteira do show. Minhas lágrimas copiosas só não chamaram tanta atenção dos fãs ao meu redor, pois o show aconteceu sob um temporal que atingiu o Rio naquela noite. Enquanto cantava com a alma canções como 'Daniel', 'Tiny Dancer', 'Rocket Man', 'Skyline Pigeon' e 'Someone Saved My Life Tonight', sentia que estava pagando uma dívida, assistindo ao show por mim e pelo papai, pois estávamos "juntos" novamente naquele momento.


O show terminou e voltei para casa em êxtase e sem voz. Na noite do dia seguinte, mostrei as fotos e vídeos do show para a minha mãe e minha irmã. Contei o que tinha sentido, e em seguida, percebi que a minha mãe estava emocionada. Ela virou para a minha irmã e perguntou: "Será que foi pra isso que ele veio?". Minha irmã respondeu afirmativamente. Fiquei sem entender o que estava acontecendo e questionei a minha mãe. Ela respondeu que, na noite anterior, enquanto eu estava no show, ela havia sonhado com o papai, o que não é comum acontecer. No sonho, ele estava com uma ótima aparência, muito bem vestido com um terno preto e uma camisa verde. Mas minha mãe ficava brava, pois ele se arrumava e saía de casa antes do almoço de domingo sem dizer o destino. Não me restam dúvidas, pagamos a dívida juntos, pois ele estava comigo no show.

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